Gasolina: 20% dos postos de Salvador e 50% da Bahia estão sem combustível

Os motoristas de Salvador já estão sentindo os efeitos do desabastecimento provocado pelo protesto de caminhoneiros que não estão chegando às grandes cidades. Na Região Metropolitana de Salvador, segundo estimativa do presidente do Sindicato do Comércio de Combustíveis, Energias Alternativas e Lojas de Conveniências do Estado (Sindicombustíveis), Walter Tannus, pelo menos 20% dos 250 postos já estão com problema de abastecimento. No interior do estado a situação é ainda pior: pelo menos 50% dos postos cerca de 2 mil postos do interior estão sem gasolina e álcool.

“Nós tivemos um agravamento muito grande de ontem para hoje porque desde ontem as distribuidoras não conseguiram mais atender os pedidos integrais dos postos e isso está fazendo com que falte gasolina e álcool nas bombas. A população está correndo para abastecer o que favorece com que o combustível acabe ainda mais rápido”, explica Tannus.

O presidente do Sindicombustíveis argumenta que com a mudança de comportamento do consumidor a tendência é que o combustível acabe pois não está ocorrendo o ressuprimento do produto.

“Nos meus três postos que tenho em Salvador ficaremos sem gasolina e álcool ainda hoje. Só tem diesel porque os caminhoneiros não estão abastecendo”, explica Tannus.

De acordo com o sindicato um posto de gasolina compra, em média, 200 mil litros de combustível por dia e vende cerca de 7 mil.

Com a maior procura e menor oferta o preço em Salvador do litro da gasolina já beira os R$5. “O apelo que faço é que não suba o preço. Não é hora de aproveitar e tirar proveito. O dono de posto é livre, mas nao é hora de fazer isso”, esclarece Tannus.

Bombas vazias
No posto BR Gameleira, localizado na BR-324, na altura do Macro, as bombas devem ficar vazias até o final da tarde de hoje. Isso porque o caminhão que abasteceria o posto está preso desde do início da manhã na via por conta do protesto dos caminhoneiros.

De acordo com funcionários, em reserva, nos tanques do posto, há cerca de 5 mil litros, quantidade insuficiente para abastecer os clientes até o final do dia. Por lá, o litro da gasolina está sendo vendido R$4,58.

O autônomo Luiz Cláudio, 38, estava abastecendo o veículo no Gameleira na manhã desta quinta-feira  (24). Em vez da gasolina, ele optou pelo o etanol, comercializado a R$3,54 o litro. Tem sido assim há pelo menos dois meses.

“Deixei de usar a gasolina  justamente porque os preços estão cada vez mais altos. Agora, só etanol, sem muitas opções”, conta o autônomo.

Luiz, com medo de um novo aumento, abasteceu o tanque com R$80. “Com a falta da gasolina, os preços vão aumentar. Geralmente, eu colo R$20, R$30”, conta. Caso os preços subam, Luiz vai deixar de levar a esposa no trabalho e vai passar a andar de ônibus.  “Sem condições”, lamenta.

No posto Shell da Vasco da Gama funcionários informaram que, no tanque da empresa, há apenas 5 mil litros de combustível, quantidade suficiente para abastecer os carros até às 12h.

O posto de combustível  São Jorge, localizado na avenida Vasco da Gama, em Salvador, está sem gasolina deste a noite da última quarta feira (23).  De acordo com um funcionairo do local, Marcelo Almeida, só resta diesel no posto. Ainda segundo o funcionário, a carreta que iria abastecer o local está travada na BR-324. “O estoque que tinha acabou. Ontem, eu saí daqui às 14 e ainda tinha alguma coisa, mas de noite terminou”, disse ele.

 A secretária Valmira Sobral é cliente do posto. Ela foi abastecer seu carro, na manhã desta quinta, mas não conseguiu. “Eu sempre coloco gasolina aqui, mas vou ter que procurar outro posto hoje”

Foto: Milena Teixeira/CORREIO

A Polícia Militar informou que adota uma rígida gestão do consumo de combustível para otimizar o emprego das viaturas de forma a não prejudicar, sobremaneira, a atividade fim da instituição que é o policiamento ostensivo. “A corporação está ainda mais atenta nesse aspecto diante do atual cenário do Brasil”, disse a PM, em nota.

Em cidades do sudoeste baiano, como Vitória da Conquista, e da região da Chapada Diamantina, como Jacobina, motoristas fizeram filas em postos de combustível para abastecer os carros, diante da baixa oferta de gasolina.

Em Conquista, a rede de postos São Jorge, com seis unidades na cidade, reservou o restante do combustível em estoque para abastecer ambulâncias, viaturas da polícia e do corpo de bombeiros.

“Estamos com dois caminhões com combustível que não conseguiram nem sair da distribuidora. O prejuízo é enorme”, diz o gerente da rede, Erval Arruda.

Painel
Os constantes reajustes nos preços dos combustíveis praticados pela Petrobras, aliados à alta carga tributária e a reação de revendedores e consumidores exigem que representantes do segmento e autoridades discutam o cenário atual do mercado de combustíveis na Bahia. Com o objetivo de apresentar como funciona a cadeia produtiva, explicando todo o processo, desde a refinaria até à bomba, além de debater o imposto único e o combate a fraudes, o Sindicato do Comércio de Combustíveis, Energias Alternativas e Lojas de Conveniência do Estado (Sindicombustíveis Bahia) realiza, nesta quinta-feira (24), o Painel Combustível Legal, às 14h, na Casa do Comércio, tendo como mediador o presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), Walter Pinheiro.

O evento contará com a participação da Agência Nacional de Petróleo (ANP), da Secretaria da Fazenda da Bahia (Sefaz/BA), do Ibametro, Procon/BA, MP-BA, da OAB Bahia, da Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Lubrificantes, Logística e Conveniência (Plural), da Assembleia Legislativa da Bahia, da Câmara Municipal de Salvador e da Fecomércio-BA, além de diversas entidades empresariais.

Prejuízos em todo o país
A greve nacional dos caminhoneiros já prejudicou a produção de 16 fábricas de carros e caminhões, conforme balanço da Anfavea, entidade que reúne as montadoras, obtido pela Folha de S. Paulo. Desde anteontem, já vinham paralisadas as plantas da Ford, em Camaçari (BA) e Taubaté (SP), e da General Motors, em Gravataí (RS) e São Caetano (SP).

Com a continuidade da greve, no entanto, o problema se agravou muito. Ontem, mais 11 fábricas pararam pelo menos um turno. O setor automotivo, que representa 4% do PIB e 20% da indústria, é extremamente dependente do transporte por caminhões, tanto para transportar peças quanto os veículos até as concessionárias.

A paralisação  suspendeu as atividades de 91 mil trabalhadores de plantas industriais de carne bovina, suína e de aves, ontem. De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), há 129 plantas paradas em todo o país, principalmente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Além disso, os Correios anunciaram a suspensão dos serviços de Sedex, enquanto perdurar a greve nas estradas do país.

Em cidades como  Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, a falta de óleo diesel compromete o transporte público.

Petrobras reduz preço do diesel
O presidente Michel Temer tentou. Pediu, literalmente, “uma trégua”, em suas palavras, “de dois ou três dias” para os caminhoneiros. A Petrobras sinalizou com uma redução temporária de 10% no preço do diesel, que poderá ter um impacto de R$ 0,25 nas bombas. Mas os caminhoneiros se mantiveram ontem irredutíveis e decidiram manter os bloqueios nas estradas de todo o Brasil no dia de hoje.

O presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), Diumar Bueno, disse que a paralisação dos caminhoneiros vai continuar porque o governo não avançou nas propostas para a categoria, além do fim da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). Ao deixar uma reunião com Temer, no Planalto, Bueno afirmou que durante a reunião, os ministros mais justificaram a impossibilidade de atender à demanda do que apresentaram contrapropostas. Um novo encontro foi marcado para hoje.

Na tentativa de facilitar o entendimento, o presidente da Petrobras, Pedro Parente, reuniu a imprensa  para anunciar a decisão  de congelar o preço do diesel. Ele foi enfático, porém, ao reafirmar a decisão da empresa de manter a política atual de acompanhar o mercado internacional, com revisões diárias, após esse período.

Segundo o executivo, o prazo de 15 dias é suficiente para o governo negociar com os caminhoneiros. Passado o período, a companhia voltará a acompanhar as Bolsas estrangeiras da commoditty, porém, deve demorar mais tempo do que isso para chegar à paridade. “São 15 dias para desanuviar o ambiente e para poder trabalhar”.

Parente negou que a medida tenha impacto sobre o programa de desinvestimento e nas ações.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou ontem que vai tentar votar o quanto antes o projeto da reoneração da folha de pagamento para alguns setores da economia. Maia chegou a dizer que tentaria aprovar a mudança ainda ontem. A proposta incluirá redução da alíquota do PIS-Cofins incidente sobre o óleo diesel.

Maia disse que, na reunião, ele prometeu votar a redução do PIS-Cofins e, na próxima semana, “avançar” na votação da regulamentação do transporte de cargas, tema que também interessa aos caminhoneiros.

Relator do projeto da reoneração, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) disse estar trabalhando em seu parecer para que a proposta seja votada o quanto antes.  Pelos cálculos de Silva, somando o corte na alíquota do PIS-Cofins com a possível redução a zero da Cide, será possível alcançar até 9% de redução no preço do diesel.

Fonte Correio da Bahia
*com supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier

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