Monteiro terá que se livrar de ‘fantasma’ da ingerência na Petrobras

A indicação de Ivan Monteiro como novo presidente da Petrobras foi bem recebida pelo mercado financeiro, mas investidores ainda não estão seguros de que a política de preços atual da estatal será mantida, apontam analistas e economistas. O maior temor de acionistas neste momento é que a empresa deixe de ter autonomia para definir o valor dos combustíveis em paridade com o preço praticado no exterior, uma das marcas da gestão anterior.

Após a notícia de que Pedro Parente havia renunciado, na sexta (1º), o nome de Monteiro já circulava e ganhava “torcida” entre investidores.Até então diretor financeiro da Petrobras, Monteiro esteve à frente de ajustes nas finanças da companhia nos últimos anos.

É também nome conhecido no mercado financeiro: foi vice-presidente de gestão financeira e de relações com investidores do Banco do Brasil, além de gerente executivo da diretoria internacional do banco.”É uma pessoa já de trato longo com os analistas de mercados de capitais e que tem uma expressão positiva no cenário externo. O fato de ser uma solução doméstica certamente é positivo”, diz Alvaro Bandeira, economista-chefe da Modalmais.

“Por ter sido braço direito do Parente no equacionamento da dívida da Petrobras, traz certa segurança”, afirma Otto Nagami, professor de economia do Insper. André Perfeito, economista-chefe da Spinelli Corretora, também diz que as impressões no mercado são de que o nome de Monteiro é bom e transmite confiança.A dúvida que paira é se ele dará continuidade à política de preços, já que a pressão para mudar esse sistema levou à queda de Parente.”Pelo discurso do Planalto ontem [sexta], foi dado esse aval [para manter a política], mas a queda de Parente é um fato destoante”, diz Nagami.

Analistas ficaram desconfiados com a frase “não serei empecilho para que alternativas sejam discutidas” na carta de demissão de Parente. “Quando ele diz que não quer ser empecilho, dá um recado de que essas discussões estão na mesa”, avalia Ana Carla Abrão Costa, economista e ex-secretária de Fazenda de Goiás.Para a consultoria de risco Eurasia, a saída de Parente é um sinal claro de que o ex-presidente da estatal achava que o governo não conseguiria bancar de forma sustentada o subsídio prometido ao diesel, especialmente se considerada a pressão política por mais descontos.

“A questão é menos Monteiro e mais como será a dinâmica da empresa. Não sei se existe muito espaço político para a Petrobras continuar com seu sistema de preços”, diz Bandeira, da Modalmais.Costa destaca que o recado das autoridades sobre o futuro da empresa não foi claro.”Teve uma preocupação de acalmar o mercado, colocando alguém com credibilidade, mas é ambíguo, porque o governo dá declarações populistas, de que vai segurar os preços”, diz a economista, apontando que pode até não haver interferência direta, mas podem ser usadas “soluções criativas” de controle de preços.

O “fantasma” da ingerência do governo na Petrobras será um dos maiores desafios para Monteiro. “Ele vai ter que mostrar que não vai ceder às pressões do governo para sustentar preços em um nível muito baixo”, diz Alexandre Wolwacz, sócio-fundador do Grupo L&S. Ele observa ainda que Monteiro terá que lidar com a escalada dos preços do petróleo no exterior e com a forte valorização do dólar ante o real (13,4% em 2018).Segundo Nagami, Monteiro tem uma característica mais operacional, com “grande capacidade de negociar, mas para por aí.”

Em termos de estilo de gestão, diz, Parente “está anos-luz à frente”. Em comentário a clientes divulgado após a saída de Parente, a equipe de análise do Itaú apontou que, entre os desafios do novo presidente da Petrobras, estão executar o programa de venda de ativos iniciado na gestão anterior, dar continuidade ao programa de desalavancagem e gestão da dívida da estatal e assegurar que a atual política de preços seja mantida.

Na sexta, o conselho de administração da Petrobras indicou Monteiro para assumir interinamente e, poucas horas depois, o presidente Michel Temer anunciou que o indicaria para o cargo em definitivo. Cabe agora ao conselho de administração da Petrobras aprovar a indicação do governo, mas ainda não há previsão de quando isso deve acontecer. Com informações da Folhapress.

Deixe uma resposta