Keno Marley e Hebert Conceição tentam manter tradição do boxe baiano em Tóquio-2020

O boxe brasileiro conquistou cinco medalhas olímpicas na história. Duas delas vieram de baianos. Adriana Araújo, que ficou com o bronze em Londres-2012, e Robson Conceição, detentor do único ouro, obtido no Rio de Janeiro, em 2016. Ao que tudo indica, Tóquio-2020 tem boas chances de aumentar essa conta. Além da campeã mundial Beatriz Ferreira, favorita na categoria leve, até 60 kg, duas outras promessas têm potencial para subir ao pódio: Keno Marley, de 21 anos, do peso meio-pesado (até 81 quilos), e Hebert Conceição, de 23, do peso médio (até 75 quilos). Ambos ficaram com a prata nos Jogos Pan-Americanos de Lima. O soteropolitano Hebert foi derrotado na final pelo cubano Arlen López, destaque absoluto e campeão olímpico em 2016. O carrasco do baiano decidiu subir de categoria, o que, em teoria, tira o principal adversário da disputa pelo ouro em Tóquio. Isso coloca Hebert, quarto no ranking mundial e agora primeiro no sul-americano, como um dos cabeças de chave da competição em Tóquio. Sendo assim, ele não poderá pegar os melhores de nenhum continente logo de cara. Apesar de ser uma categoria muito difícil, por termos muitos atletas fortes, ele tem a felicidade de ser quarto do Ranking Mundial, o primeiro da América, ele não cruza diretamente com o campeão. Eu tenho certeza que, a partir do momento que ele conseguir fazer uma, duas lutas, pegar ritmo nos Jogos, vai embalar, chegar bem e ser medalhista. Apesar da [pouca] idade, ele é favorito”, analisou Amonio Silva, o Mone, técnico baiano da equipe olímpica do Brasil, em entrevista ao Bahia Notícias. No entanto, Hebert não gostou muito do fato. “Talvez tenha sido minha derrota mais dolorosa até hoje, pelo fato de ter sido na final dos Jogos Pan-Americanos. É uma pena ele ter subido, porque eu não terei a chance de fazer uma revanche, numa semifinal, ou final olímpica. Seria mais especial eu poder vencê-lo em uma ocasião dessas. Mas acho que a categoria continua difícil da mesma maneira, porque tem outros atletas qualificados, com outros títulos europeus e mundiais. O que fará a diferença será o atleta que chegar melhor preparado”, afirmou, ao BN. Preparação que foi atrapalhada em certo momento por causa da pandemia. Os Jogos foram adiados em 2020, e o isolamento social, necessário para conter a disseminação do coronavírus, impediu por um bom tempo que os atletas treinassem juntos. A solução encontrada por Hebert foi pegar a chave da academia que ele costumava treinar, aqui em Salvador, a Champion, para fazer treinos solo. A quarentena foi um período de autoconhecimento e de controle emocional. Foi uma notícia que abalou bastante psicologicamente o adiamento da Olimpíada. Mas também eu tentei, ao máximo, me manter em forma. Inicialmente, os treinamentos eram em casa, de maneira improvisada. Logo depois, um mês e meio, consegui com o meu professor a chave da academia onde eu treino em Salvador, a Champion, para que eu pudesse ir sozinho fazer meu treinamento específico. Depois eu devolvia a chave para ele. A academia não podia abrir para grupos, mas como era uma necessidade muito grande eu manter a forma, eu ia. E na academia Cyber, o treinador de lá me disponibilizava a chave também. Essas ajudas foram cruciais para eu manter meu corpo em forma e minha rotina de atleta”, revelou. O baiano ainda destacou a importância da família durante a pandemia para se manter psicologicamente forte. Quando começou a se destacar no boxe, Hebert saiu de sua cidade natal, Salvador, para se juntar à equipe olímpica em São Paulo. Desde então, dificilmente ficava por muito tempo na capital da Bahia. “Foi um período que eu fiquei quatro meses em casa, coisa que não acontecia há 3 anos. Foi um momento que aproveitei a minha família, e isso me ajudou. Estar perto da minha mãe, da minha namorada, da minha sobrinha, minha irmã, me ajudou bastante a manter a saúde mental em dia”, lembrou. Já no caminho de Keno Marley, natural de Conceição do Almeida, também havia um cubano. De nome diferente, claro: Julio César La Cruz, a superestrela do boxe amador. Na carreira, ele conquistou três medalhas de ouro pan-americanas, quatro mundiais e uma olímpica, também no Rio. A derrota de Keno para La Cruz ocorreu no Pan de Lima, em 2019, na decisão. Curiosamente, este cubano também mudará de categoria. “Mas o boxe é um esporte muito disputado, todos os países têm bons lutadores. Estou preparado para lutar em nível de igualdade com qualquer um deles”, ponderou Marley, à reportagem. O pugilista garantiu que a pouca idade não é um problema, e garantiu que vai dar tudo de si para brigar pelo ouro olímpico. “Eu tenho apenas 21 anos, mas isso não me dá frio na barriga, porque eu pratico boxe há bastante tempo, e tenho bastante bagagem. Já fui para campeonatos grandes, e isso me ajudou a hoje chegar onde estou. A equipe olímpica criou métodos e estratégias de treinamentos para mantermos com um nível adequado durante a pandemia, um nível bom de treinamento. Quero trazer uma medalha de ouro. Darei tudo para isso”, afirmou.Mone parece concordar. “Keno só não tem [muita] idade, mas tem um talento diferenciado. Foi campeão em vários torneios europeus, medalhista no Pan, campeão dos Jogos Olímpicos da Juventude. Vem só acumulando títulos. Treina desde cedo, veio para São Paulo muito novo. É respeitado na categoria, tem uma leitura de luta muito boa, tem uma envergadura boa, sabe utilizar, e a gente tá bastante confiante. Com Keno, Bia e Hebert. Temos chances de representar bem o Brasil, de trazer de duas a três medalhas olímpicas”, destacou o treinador. Para essa Olimpíada, ainda há uma peculiaridade. Faltam apenas 15 dias para os Jogos, e quem testar positivo para a Covid-19 até lá ficará de fora do evento. A delegação de boxe do Brasil viaja para Tóquio neste sábado (10). Até lá, outros dois testes serão feitos pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB): um aqui no Brasil e outro na chegada à capital japonesa. Os positivados nem irão para a Vila Olímpica. Apesar disso, tanto Keno quanto Hebert elogiaram o esquema montado pelo Comitê Olímpico Internacional pela organização dos protocolos de segurança dos Jogos. “Já estou vacinado com as duas doses. Isso me dá segurança ainda maior para que eu me preocupe apenas com a competição. E é só seguir todos os protocolos de segurança e de saúde que acho que não teremos grandes problemas”, declarou Hebert, enquanto Keno seguiu a mesma linha de raciocínio: “Apesar de todo o problema que vem ocorrendo no mundo, eu acredito que a estrutura dos Jogos vai nos manter em segurança. Seguimos um protocolo bem rígido aqui para evitar contaminação. Estou me prevenindo o máximo possível”. Fonte: Bahia Notícias

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