Robôs, contas em nomes de terceiros e laranjas para receber valores: Veja estratégias de apostadores para não serem pegos em esquema de fraudes
De acordo com o documento da denúncia feita pelo Ministério Público contra os 16 acusados de integrar esquema de manipulação de resultados de jogos de futebol, os membros do grupo se utilizavam de algumas estratégias para não serem pegos nos esquemas de fraudes. Entre elas, o uso de robôs tentando entrar em até 35 contas de uma vez para a realização de apostas, contas em nomes de terceiros e laranjas para recebimento de valores.
De acordo com o órgão, as estratégias eram empenhadas “sempre visando não chamar atenção das casas de apostas esportivas”.
O g1 não conseguiu localizar os sites utilizados para as apostas para um posicionamento, para saber quais medidas vêm sendo tomadas para evitar esse tipo de manipulação. Já a defesa de Bruno Lopez afirmou que vai se posicionar sobre as acusações formal e processualmente no momento oportuno (veja nota ao final da reportagem).
Uso de robôs
De acordo com o documento do Ministério Público, o uso de robôs para a realização de apostas era uma das estratégias adotadas. Em uma ligação telefônica legalmente interceptada de Bruno Lopez, apontado como chefe do esquema, o empresário explica à outra que esses robôs, programados em dois computadores, iriam entrar em diversas contas dos sites de uma vez para a realização das apostas.
Conversa entre Luís Felipe e Bruno Lopez e Thiago Chambó e Bruno Lopez, em Goiás — Foto: Reprodução/Ministério Público
Conversa entre Luís Felipe e Bruno Lopez e Thiago Chambó e Bruno Lopez, em Goiás — Foto: Reprodução/Ministério Público
“O robô tá em dois computador meu aqui. Entra de trinta [contas] de uma vez, trinta e cinco”, disse o empresário.
Segundo a investigação do Ministério Público, o núcleo de financiadores do esquema era o responsável por providenciar contas previamente abastecidas com saldos para serem usadas nas apostas múltiplas.
Contas de terceiros
Em mensagens, Bruno Lopez envia a Luís Felipe diversas contas a serem utilizadas para apostas, em Goiás — Foto: Reprodução/Ministério Público
Em mensagens, Bruno Lopez envia a Luís Felipe diversas contas a serem utilizadas para apostas, em Goiás — Foto: Reprodução/Ministério Público
Assim como o uso de robôs, o Ministério Público explicou que, para conseguirem lucros expressivos com os sites de casas esportivas, o número elevado de contas criadas nos mesmos sites geralmente levavam nomes de terceiros, “como forma de assegurar e maximizar os ganhos com os ilícitos”.
Segundo o órgão, além de aumentar os lucros, uso de contas de terceiros servia para ocultar os reais beneficiários.
Laranjas para receber valores
Outra estratégia utilizada pelos acusados era a utilização de laranjas para receber valores. Em uma conversa entre o empresário Bruno Lopez e Thiago, o suposto financiador aconselha o apostador a não utilizar mais a conta de Camila Motta ou da empresa do casal, a BC Sports Management, para a realização de transferências.
“Nem transfere mais da sua mulher, nem sua CNPJ pra ninguém nas próx entendeu. Pega umas conta laranja pra mandar”, escreveu Thiago à Bruno.
Trecho transcrito de ligação feita por Bruno Lopez sobre os robôs utilizados para as apostas, em Goiás — Foto: Reprodução/Ministério Público
Trecho transcrito de ligação feita por Bruno Lopez sobre os robôs utilizados para as apostas, em Goiás — Foto: Reprodução/Ministério Público
Atuação em núcleos
Segundo o MP, o grupo criminoso cooptava jogadores com ofertas que variavam entre R$ 50 mil e R$ 100 mil para que cometessem lances específicos nos jogos – como um número determinado de faltas, levar cartão amarelo, garantir um número específico de escanteios para um dos lados e até atuar para a derrota do próprio time. Diante dos resultados previamente combinados, os apostadores obtinham lucros altos em diversos sites de apostas.
Segundo o Ministério Público, o esquema era dividido em quatro núcleos: de apostadores, financiadores, intermediadores e administrativo.
Os núcleos funcionavam da seguinte forma: o “Núcleo Apostadores” era formado por responsáveis por contatar e aliciar jogadores para participação no esquema delitivo. Eles também faziam pagamentos aos jogadores e promoviam apostas nos sites esportivos.
Também havia o “Núcleo Financiadores”. Eles eram os responsáveis por assegurar a existência de verbas para o pagamento dos jogadores aliciados e também nas apostas manipuladas.
Além disso, havia o “Núcleo Intermediadores”, estes eram responsáveis por indicar contatos e facilitar a aproximação entre apostadores e atletas aptos a promoverem a manipulação dos eventos esportivos.
Também havia o “Núcleo Administrativo”, que era responsável por fazer as transferências financeiras a integrantes da organização criminosa e também em benefício de jogadores cooptados.
Como a operação começou
A Operação Penalidade Máxima já fez buscas e apreensões nos endereços dos envolvidos. As investigações começaram no final de 2022, quando o volante Romário, do Vila Nova-GO, aceitou uma oferta de R$ 150 mil para cometer um pênalti no jogo contra o Sport, pela Série B do Campeonato Brasileiro. Romário recebeu um sinal de R$ 10 mil, e só teria os outros R$ 140 mil após a partida, com o pênalti cometido. À época, o presidente do Vila Nova-GO, Hugo Jorge Bravo, que também é policial militar, investigou o caso e entregou as provas ao MP-GO.
Nota da defesa de Bruno Lopez na íntegra:
“De igual forma à primeira fase da operação, entendemos que, por se tratar de uma denúncia extensa, com diversos anexos oriundos dos elementos extraídos na investigação, é necessário muita cautela em qualquer comentário. Apesar de se tratarem de fatos novos, jogos diferentes daqueles que foram objeto de denúncia na primeira ação penal, o crime pelo qual Bruno se encontra acusado é exatamente o mesmo, mas por situações diferentes. Como de praxe, sempre com muito respeito ao trabalho do Ministério Público e do Poder Judiciário, as acusações serão formal e processualmente respondidas no momento oportuno.”
G1
Foto Reprodução Ministerio público


