Especialistas divergem sobre entrada do Brasil na Opep+
Por um lado, adesão na Opep+ é vista como contradição em relação à política ambiental brasileira. Por outro lado, ingressar na organização é tida como uma posição estratégica de atuação para a transição energética limpa.
O Brasil deverá ingressar no grupo de produtores de petróleo Opep+ com um papel de cooperação das decisões e sem participação do sistema de cotas de produção, a partir do ano que vem, mas o tema vem repercutindo mal, em especial, pelo contexto em que foi lançado: em meio à COP-28, que discute alternativas para desacelerar o aquecimento global. O presidente Lula e Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, minimizaram na Cúpula do Clima a adesão, defendendo que o país será um colaborador. Especialistas divergem a respeito desse ingresso na organização que reúne os maiores produtores de petróleo do mundo.
O sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, diz que a adesão à OPEP Plus e a possível criação da Petrobrás Arábia são decisões contraditórias com o que o Brasil foi apresentar na COP-28. O país busca se apresentar como líder na defesa da transição energética.
Pires ainda ressalta que estar no grupo pode favorecer à Opep, justamente para ter maior controle sobre o potencial de produção de petróleo no Brasil.
“Quanto mais países estiverem aliados ao cartel, melhor para a Opep. O interesse da organização está em entender quanto o Brasil produz e o quanto pode cortar. Com isso, é estratégico saber quanto de petróleo países como o Brasil podem suprir o mercado”, ressalta.
Já o professor Silvio Vieira de Melo, coordenador do doutorado em Energia e Ambiente da Universidade Federal da Bahia (UFBA) vê o tema com outra perspectiva e diz que a adesão pode ser positiva para o Brasil. Ele destaca que a transição energética será feita de forma paulatina, de modo que não é possível que os países produtores de petróleo simplesmente interrompam a exploração desse recurso. Ao mesmo tempo, o pesquisador destaca que o Brasil pode ser líder na transição energética e que estar no grupo dos maiores produtores é uma estratégia.
“Como líder natural da transição energética, o Brasil tem condições de contribuir porque o petróleo é importante para financiar a mudança da matriz. Toda a liderança traz críticas, mas é preciso entender se são críticas enviesadas ou não, porque é normal que quem não produz critique os produtores. E quem produz não vai da noite para o dia apostar somente nas energias renováveis”.
Para o diretor da ES Petro, Edson Silva, o Brasil que vai participar dessa instituição é o segundo maior produtor mundial de biocombustíveis, ou seja, etanol e biodiesel, e com isso, terá voz para estimular este tipo de produção. O especialista estima que os maiores produtores de combustíveis fósseis terão interesse em financiar a transição energética.
Em termos de papel diplomático do Brasil, o professor André Reis da Silva, especialista em Política Externa Brasileira, lembra que o país sempre buscou atuar em diversos fóruns internacionais. Além disso, estar próximo das discussões energéticas pode trazer vantagens:
“Não vejo exatamente uma contradição. Isso porque o governo Lula sempre esteve presente em diversos fóruns internacionais e agora se concretiza o convite da Opep+, que havia sido feito ainda durante o governo Bolsonaro. Por outro lado, o Brasil produz 4% do petróleo mundial, portanto, precisa estar atento às decisões. Como produtor e comprador, o país já foi atropelado pelas decisões dos maiores produtores mundiais de petróleo”, disse.
Já o diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Daniel Maia Vieira, destaca que a participação do Brasil na Opep+ tem diversas dimensões positivas, especialmente em razão da reconhecida característica do Brasil em ser um excelente mediador. Segundo o especialista, o país poderá utilizar este espaço para fomentar investimentos em tecnologias associadas à redução da intensidade de carbono na produção de petróleo, inclusive, desenvolvidas no Brasil, bem como angariar importante apoio à estratégia global de enfrentamento à emergência climática mundial.
“Grandes empresas globais, como Repsol, Shell, Total Energies e Equinor, além da Petrobrás, têm relevante fatia de seu portfólio de investimentos relacionado à transição energética para os próximos anos e isso se reflete nos seus investimentos no Brasil. Dessa forma, a participação no grupo pode significar, também, a ampliação de importantes mercados para tecnologias e indústria nacionais”, ressalta.
Em um painel da COP-28, em Dubai, Lula disse que o Brasil vai participar da Opep+ para influenciar os produtores de petróleo a acabar com a exploração de combustíveis fósseis.
Foto: Ton Molina/Fotoarena/Agência O Globo
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